Capítulo 3 . Cultura e Ideologia
CULTURA: diferentes significados
- O termo cultura é utilizado com diferentes significados.
- No senso comum encontramos o uso do termo como sinônimo de educação.
- Nesta acepção, a cultura tem sido motivo para discriminação, pois pessoas e grupos sociais são julgados de forma positiva ou negativa com base em seu grau de escolaridade ou em sua identificação com a cultura urbana dominante.
- Nas ciências sociais, em especial na antropologia, entende-se por cultura o conjunto de práticas, saberes, valores e normas construídos nas interações sociais em cada sociedade e tempo histórico.
- Segundo essa perspectiva, não é possível estabelecer um parâmetro que indique sua correção ou superioridade entre diferentes culturas.
Da antropologia evolucionista à crítica ao evolucionismo cultural: diferentes correntes teóricas.
- Os primeiros estudos sobre cultura partiram de uma perspectiva evolucionista segundo a qual haveria uma escala pré-determinada de evolução das culturas, como se todas tivessem que passar pelos mesmos estágios rumo à civilização (tida como modelo ideal).
- Críticas ao evolucionismo cultural:
- O culturalismo ou particularismo histórico defende que cada cultura tem uma história particular, não determinada. Portanto, para compreendermos uma cultura é preciso reconstruir sua história.
- De acordo com a análise funcionalista, as culturas podem assumir diferentes formas, que são explicadas pelas estruturas sociais necessárias à conservação da dinâmica social.
- Para o estruturalismo o estudo da cultura deve buscar explicar os modelos inconscientes (as estruturas, como o vocabulário e as regras de parentesco) que determinam os parâmetros pelos quais os indivíduos e grupos explicam a si e ao seu mundo.
- O antropólogo estadunidense Clifford Geertz pensou a cultura como um sistema simbólico, que confere sentido às práticas e às instituições sociais.
Selvageria ---→ barbárie ----→ civilização
(ideia de evolução cultural)
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X
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Pluralidade cultural como característica das sociedades humanas
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Etnocentrismo e relativismo cultural
- O contato entre diferentes culturas leva a processos de estranhamento (em relação aos costumes do outro) e desnaturalização (de nossas próprias práticas, quando analisadas pela perspectiva do outro).
- Quando o estranhamento em relação ao diferente se transforma em repúdio ou na afirmação da própria cultura como superior, estamos diante de um comportamento etnocêntrico.
- O etnocentrismo é uma forma de preconceito e pode gerar graves conflitos, como ataques a imigrantes, estrangeiros ou a membros da mesma sociedade que possuem práticas culturais diferentes.
- Relativismo cultural: postura contrária ao etnocentrismo, que procura reconhecer a diversidade cultural como positiva, respeitando cada manifestação cultural e procurando compreendê-las a partir de suas lógicas próprias.
O pintor uruguaio Torres Garcia representou a América invertida, relativizando o olhar sobre o “superior” e o “inferior” e exaltando as culturas dos povos da América do Sul, historicamente submetidos à dominação cultural norte-americana.
Ideologia: diferentes significados
- Ideologia (sentido geral): convicções filosóficas, religiosas ou políticas que dão embasamento a nossos pensamentos e atitudes.
- Ideologia como falsa consciência: Para Karl Marx ideologia é o conjunto de representações falsas e invertidas da realidade social que garantem a conformidade da classe trabalhadora aos valores estabelecidos pela classe dominante.
- Ideologia como visão de mundo: Segundo o italiano Antonio Gramsci, ideologias são concepções de mundo, formas culturais compartilhadas por grupos que atribuem sentido às suas experiências de vida.
- De acordo com a perspectiva de Gramsci, é possível pensar em diferentes ideologias disputando hegemonia em uma sociedade, já que a classe dominada também seria capaz de criar sua própria visão de mundo, não apenas reproduzindo as ideologias dominantes, como pensou Marx.
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As diferentes faces da cultura
- Cultura popular: conjunto de manifestações que tem origem nas classes dominadas ou populares. É o saber não institucionalizado ou não dominante de determinada sociedade.
- Cultura erudita: práticas e valores que tiveram origem nas classes dominantes. É o saber institucionalizado, apresentado como produção e visão de mundo das elites, que procura se consolidar com base na oposição ao popular.
- Cultura de massa: produzida pelos meios de comunicação e destinada às massas urbanas, se caracteriza por ser homogênea e vinculada a interesses comerciais.
- Indústria cultural: conjunto de empresas ligadas aos veículos de comunicação como rádio, TV e internet, controladas pela classe dominante, que ao criar produtos de massa promovem a planificação da cultura, segundo os filósofos alemães T. Adorno e M. Horkheimer.
Orquestra sinfônica do estado de São Paulo (exemplo de manifestação de cultura erudita)
Marabaixo: dança popular do estado do Amapá
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Internet e indústria cultural: liberdade e controle
A internet como meio de comunicação de massa tem sido tema de grandes debates, que dividem opiniões em torno de alguns argumentos principais, tais como:
- O uso da internet garante maior liberdade para divulgação e acesso abens culturais produzidos à margem da grande mídia, sendo um meio propício para o fortalecimento de ideais democráticos.
- A internet funciona como meio de propagação dos interesses das indústrias fonográfica, cinematográfica, jornalística, televisiva etc, que fortalecem sua divulgação e venda de produtos culturais dentro e fora dela.
- Não cabe a nenhuma organização estatal regular o que é divulgado e acessado na rede mundial de computadores e deve-se ter atenção aos interesses comerciais de grandes corporações de mídia no debate sobre liberdade e controle na internet.
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Cultura, identidade, rede e fluxos no século XXI
- Identidade social: reconhecimento consciente do pertencimento a uma coletividade específica, com características distintas dos demais grupos.
- Na modernidade, as nações representavam comunidades simbólicas que serviam de base para a construção de identidades coletivas, enqunto que na contemporaneidade, percebe-se um descentramento das identidades, que se tornam cada vez mais contextuais e móveis.
- As tribos urbanas são constituídas por pessoas que têm em comum a identificação com elementos específicos da cultura urbana e que se vinculam por interesses contextuais, podendo ser vistas como a forma primordial de construção das identidades juvenis neste início de século.
- Pode-se dizer que os meios de comunicação de massa exercem forte influência na formação das identidades na atualidade, mas por outro lado é clara a possibilidade de ressignificação dessas influências por parte daqueles que delas se apropriam no processo de construção de suas identidades.